Mas para que raio quero eu um blog?

Um pano encharcado nas trombas.

Quando eu era jovem, identificava-me como uma pessoa rica e acreditava que podia passar as tardes, depois do almoço de domingo, no ócio esparramada no canapé, que existia no alpendre da nossa casa, nas margens do Atlântico. 

A minha mãe, uma mulher dedicada com esmero e brio às actividades domésticas em casa dela ou na casa das patroas, gritava do quintal:

- Ó Carla! Anda me ajudar rapariga! A roupa não se lava e estende sozinha! Chamamento ao qual eu fazia ouvidos moucos até ouvir o primeiro "Carla Maria!" E lá aparecia eu, contrariada e profundamente ofendida pela ordem.

- Mãe, eu indentifico-me como uma pessoa rica e não posso passar as tardes agarrada ao tanque a lavar e estender a roupa. A minha mãe espetava-me duas lambadas psicológicas e eu passava da realeza ao povo em segundos.

Obviamente que esta introdução não é de todo verdade. Ainda que as tardes de domingo fossem passadas no tanque, a lavar a roupa da semana, numa casa de cinco pessoas, porque máquinas de lavar roupa na época era coisa de gente rica, a minha mãe nunca me obrigou. Eu e a minha irmã ajudávamos porque era  nossa obrigação fazê-lo. E eu nunca me identiquei como uma pessoa rica.

Serve isto para uma análise à notícia de que alguns jovens portugueses, que se identificam e vestem como animais e exigem ser tratados como tal. Inclusive serem atendidos por veterinários. E que levou a ordem dos médicos veterinários a antecipar-se e emitir orientações internas sobre como actuar nestas situações.

Ora, a questão nem é haver jovens que se identificam como animais. A adolescência sempre foi aquele terreno pantanoso em que o cérebro ainda está em obras. Eu própria tenho dias no inverno em que não me importava de me identificar como um urso e hibernar. O problema aqui é a sociedade adulta que dá tempo de antena a esta fantasia, fazer conferências e publicar artigos sobre o tema.

Infelizmente hoje em dia, cultiva-se esta parvoeira de que tudo deve ter lugar de escuta, analisado e esmiuçado mesmo que alguém apareça a dizer que se identifica como um cavalo de puro sangue e faça concertos de máscara de cavalo enfiada na cara. Como aquela DJ alemã que tem milhares de visualizações no instagram de pessoas curiosas,  porque há quem diga que é uma máscara e outros que afirmam que fez uma cirugia plástica para se parecer com um cavalo.

Dou o seguinte cenário:

Figueira da Foz. Anos 80. 

Mãe: sentada no sofá depois de uma tarde com a barriga encostada ao tanque. 

Pai: sentado no sofá depois de uma tarde enfiado no estádio de futebol a ver a naval 1° de Maio a jogar.

-Mãe, Pai...

A D. Céu revira os olhos porque está cansada e sem paciência para me aturar. O Sr. Ferreira ajeita-se no sofá, olha para mim de relance porque está na hora do telejornal.

E eu continuo o meu discurso. - Mãe, Pai, hoje acordei a identificar-me como um cão. - Au au ... au au...e de lingua de fora a arfar e cauda a abanar, roço-me nas suas pernas à procura de festinhas. 

Eles olham para mim em simultâneo 

- Ai sim! 

A minha mãe, corria para a cozinha buscar a colher de pau e dava-me com ela no lombo até me alinhar os chakras. O meu pai punha-me uma trela ao pescoço e amarrava-me na casota no fundo do quintal para proteger a casa. 

E pronto, ficava a questão resolvida.

Não havia noticias, debates televisivos, nem psicólogos a dizer que precisava de um ambiente seguro para explorar a minha personalidade canídea.

Hoje em dia, um jovem diz que se identifica como uma anémona e escrevem-se debates, pareceres e artigos de opinião.

Saí mais um pano encharcado nas trombas! 

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