Chove.
Este tom cinzento escuro, que me é revelado assim que abro a persiana do quarto, dá-me logo vontade de cancelar o dia.
Pessoas escondidas debaixo de guarda-chuvas pretos e cinzentos, e que envergam casacos, calças e sapatos que não fogem muito dessa gama de cores, percorrem a rua em passo acelerado. Fogem da chuva... Atrasadas... O mais certo é já levarem o stress no corpo de uma semana que vem de começar.
Sigo com calma. Tenho tempo. O autocarro é às 8h e a paragem fica a 300 metros de casa. Vai lotado de gente cabisbaixa, não porque o peso do mundo lhes pesa sobre os ombros, mas porque o ecran do telemóvel ou PC lhes enche os olhos com algo mais agradável.
Tirando a cor azul dos bancos, é uma paleta de cores monocromática que se destaca. Preto e as suas diferentes tonalidades quando se lhe junta mais ou menos branco. Também eu mergulhei neste mundo que simplifica a tarefa de criar combinações de cores e roupas. Um senhor de casaco beje entra e saí na paragem logo a seguir. Deve ter se sentido destoado. Aquela peça de roupa não harmoniza com o resto do ambiente.
A rua onde saiu é perpendicular à rua para onde vou trabalhar. A casa para onde vou trabalhar é a última dessa rua. As casas de um lado e do outro são todas iguais. Mesma tipologia. Geminadas. Branco, cinzento claro, cinzento escuro. Branco, cinzento claro, cinzento escuro... janelas com os caxilhos brancos, telhados com telha preta. Em frente das casas, os carros, brancos, cinzentos, pretos. Brancos, cinzentos, pretos... o mesmo no interior da casa e na decoração.
Dizem, quem percebe do assunto, que o poder do monocromático é criar composições envolventes e ambientes cativantes. Que ao explorar todas as nuances da cor escolhida dá beleza e elegância. Eu acho que o mundo perdeu a cor. É branco, preto e em 50 tons de cinzento.
Assim que abro a porta da casa, um vislumbre colorido desce as escadas a correr, com pasta de dentes ainda na boca e a escova de dentes na mão, na sua inocência de criança de 4 anos que teima em se vestir sozinha e que, ela sim, sabe combinar cores, umas calças cor de rosa e uma sweat amarela e vários acessórios coloridos a compor o visual, mostra me, antes de a mãe lhe dizer que estão atrasadas, o novo chapéu de chuva vermelho da Minie que vai levar para a escola. Não saí de casa antes de me dar um abraço, me desejar um bom dia de trabalho e de me oferecer o desenho do arco iris que pintou para mim ontem.
O mundo está menos colorido. É um facto. Mas nós não precisamos de nos limitar aos 50 tons de cinza. Um mundo muito padronizado torna se monótono e previsível.