Mas para que raio quero eu um blog?

" Carla, como eras tu em criança?"

Eu? Do melhorzinho que havia.

Mentira.

Nunca fui uma aluna brilhante. Ia-me safando. Quando os calos apertavam lá estudava mais um bocado, para não ter de repetir o ano. Era frequente a minha mãe ouvir, nas reuniões de pais, que eu podia ter melhores notas, mas ia ficando feliz com os seviços mínimos. Mas, dependendo da matéria, que sendo interessante, mantinha-me mais atenta e concentrada e a coisa melhorava substancialmente ao final do trimestre.

Era faladora, destabilizadora, dada ao comentário palhaço, fui algumas vezes à directora ouvir sermão. Mas nunca fui posta fora da sala de aula, nem nunca tive uma falta a vermelho.

Na primária, na época em que se apanhava reguadas por cada erro que se dava num ditado, se tivesse ficado calada, tinha levado só uma, porque me esqueci de pôr o C na palavra "espectáculo". C esse que foi abolido anos depois, o que me revoltou imenso. Por isso "espectáculo" para mim será sempre com um C.

Mas como refilei e quando, ao estender a mão para levar com a régua, a retirei do caminho, levei com ela 3 vezes. A primeira pelo erro. A segunda por nunca estar calada. A terceira por ter sido xica esperta. 

Em matemática era uma tragédia. Em físico-química bem pior. Nas línguas safava-me muito bem. Em filosofia tinha a mania que era "expert" na matéria. Adorava argumentar não só com o professor, mas também com os colegas da sala.

Tinha uma capacidade natural para transformar uma aula, num debate aceso, é claro que isto trouxe o desgaste de alguns professores. E no 8° ano chumbei com três negativas. 1 a matemática .1 a físico-química. 2 a português. Não era aplicada. Oferecia aos colegas conversa, distração e gargalhadas. Mas a professora de português estava disposta a levantar-me a nota se outro o fizesse também. O que não aconteceu e serviu-me de lição. Além de ter de repetir o ano, fui trabalhar para o restaurante da minha madrinha todo o verão, enquanto os meus amigos iam para a praia e ficavam a brincar na rua até anoitecer.

Voltei uma nova Carla para júbilo de professores, auxiliares e colegas. Mas continuei com esta tendência estouvada, brincalhona, respondona, chata, com resposta sempre na ponta da língua e se necessário fosse defender alguém, a justiceira defendia sempre os injustiçados.

No fim da escola, nos dias em que não tinha de ir aos tempos livres no colégio de freiras, aprender a arte de ser uma boa dona de casa, bordadeira e tricotadeira, que era uma grande seca, safavam-se as freiras que eram bem porreiras, chegava a casa ia chatear o perú do meu pai, que coitado, morreu com uma paulada na cabeça, no dia em que,  a capoeira ficou aberta e ele fartinho de me aturar, saltou-me para cima dos ombros, fincou as garras, bicou-me de tal maneira a cabeça que a única maneira de o parar foi um pancada certeira. Depois ia comer pão com manteiga e beber leite com chocolate para casa da minha amiga Emilia. No fim do lanche ia-mos brincar para a rua com os amigos do bairro. Os pacotes do leite de chocolate vazios ia conosco, porque era super divertido enche-los de ar e rebentá-los com o pé no chão e rir às gargalhadas de quem levava com o resto do leite na cara. 

Raramente brinquei com bonecas. Não era muito dada a brincadeiras de meninas. Vestidinhos, ganchinhos e afins, um horror. Vestir bonecas e pentear princesas deusmalivre. Sendo sincera coisas demasiado chatas para o meu temperamento. Talvez por isso, na infância tive uma única amiga, a Emília. Que era "maria rapaz" como eu. Sinceramente achava bem mais interessantes as brincadeiras dos rapazes e as coisas tolas que inventávamos que terminavam sempre com alguém magoado ou de castigo.

Uma vez a jogar o jogo da lata, dei-lhe um pontapé e ela foi bater na cabeça do Tó-Jó, ele ficou magoado, eu fiquei de castigo. Outra vez, o Pedro caíu do cimo de uma árvore, ele partiu o braço, eu fiquei de castigo. Houve também o dia em que recebi a minha primeira bicicleta, foi no dia em que fiz 9 anos, e no mesmo dia fiquei sem ela. Num sprint desenfreado ladeira acima, sem prestar muita atenção à estrada, porque ia mais preocupada em não ser ultrapassada pelo pelotão, esbardalhei-me contra uma carrinha de caixa aberta. Não fiquei magoada, não aconteceu nada à carrinha, a bicicleta foi para o lixo, mas por ser estouvada fiquei de castigo o resto da vida, só voltei a ter uma bicicleta quando a comprei com o dinheiro que ganhei num verão a trabalhar num café.

Já nessa altura revelava um talento natural para o desastre parvo, sem sentido. Como no dia em que um azar nunca vem só, e que fui 2 vezes ao centro de saúde e ao fim do dia ao hospital. Ou no dia em que ia deitando fogo à casa, porque tava com o sentido na brincadeira e esqueci que tinha posto batatas a cozer. Quando me lembrei, era uma fumarada, as batatas esturricadas dentro do tacho, quase desfeitas em pó. Mas rápido resolvi a situação, abri as janelas, descasquei mais batatas e pus a cozer, quando a minha mãe chegou, foi só comer. Mas fiquei de castigo, porque o tacho ficou todo negro.

Não fui a melhor aluna, nem a mais bem comportada, ou a mais atinada, ou aquela que se ia encaixando em padrões, mas talvez já fosse aquilo que sou hoje, uma criatura sem paciência para injustiças e palermices.

Mas era, sem sombra de dúvida uma criança curiosa, comunicativa, cheia de energia e alegre.

E é só isso que se pretende que uma criança seja.

Feliz dia da criança para vós e vossa prole.

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